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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Ficha de Leitura: «Utopia», Thomas More, de Ana Campos, 10ºG

Ficha de leitura, Ana Campos, 10º G

Autor: More, Thomas

Nome da Obra: Utopia

Publicações Europa-America, Janeiro de 1973,141 páginas

Com esta obra, More traz à sociedade do século XVI um valioso projecto humanista de melhoria da existência humana, cuja aplicação julga viável para a Europa quinhentista. O autor procura apresentar solução para problemas como a criminalidade e a sua repressão, os conflitos religiosos, as diferenças sociais e a situação das classes mais desfavorecidas ou pessoas incapacitadas para o trabalho, entre outros. Assim, More, com um povo de nível intelectual semelhante ao da Europa do século, “habita” uma ilha imaginária, mas cujos habitantes aproveitavam melhor e segundo uma politica de igualdade, fraternidade e solidariedade, os recursos dos quais dispunham, mediante uma organização social assente em critérios racionais e um conjunto, escasso, de leis, a seu ver, perfeitas.

A Utopia inicia-se com uma carta de Thomas More a Pedro Giles, em que o humanista, enviando saudações, anuncia o envio da sua obra. Ainda aqui, relata as condições em que a concretizou, assegurando a sua veracidade. O autor demonstra certas dúvidas quanto à publicação, reflectindo brevemente sobre a natureza da humanidade.

A obra segue com uma parte intitulada Livro primeiro da comunicação de Rafael Hitlodeu, acerca da melhor constituição de uma república”, em que são descritas as ideias e debates que levaram à narração da história do povo da Utopia. O autor começa por referir a ocasião em que conheceu Pedro Giles. Este apresenta-lhe Rafael Hitlodeu. As conversas dos três homens, enriquecidas pelas experiências fantásticas de Rafael, convergem para a crítica da sociedade europeia do século XVI, analisando temas como o despotismo e ganância das monarquias e o servilismo dos cortesãos, o problema da pobreza e de como dela pode advir o roubo, bem como outro género de crimes e a justiça a aplicar face as pessoas nestas circunstancias.

É demonstrado descontentamento face à ociosidade dos nobres e clérigos e sobre a exploração e fraudes que sobre eles exercem, conduzindo-os à pura ruína.

Realçam-se as desvantagens da guerra e do treino de homens nesse sentido no lugar de serem “exercitados num ofício honroso, de que pudessem tirar o sustento”

Alvo de repreensão são também todas as formas de vício, como a prostituição, jogos de dados ou cartas.

Discute-se os governos dos reis e príncipes e qual a influência dos ensinamentos de Cristo neles.

Diversas referências são feitas à obra de Platão, “A Republica” como forma de comparação entre a sociedade do tempo e os Utopianos (que começam a ser referidos como povo de eleição), nomeadamente condenando a propriedade privada e exaltando a comunidade de bens e o conforto geral. Hitlodeu acredita, referindo a ideologia de Platão, que “o único caminho para conseguir a felicidade consistia em estabelecer a igualdade entre todas as coisas”

Os três homens começam a delinear possíveis soluções tendo Rafael concluído que o povo da ilha da Utopia e a forma como se organizava se apresentava como a o ideal para as questões debatidas, acabando esta parte com a promessa do último de descrever detalhadamente essa”solução”.

Com esta promessa, se inicia a última parte do livro de título “Livro segundo do discurso de Rafael Hitlodeu acerca da melhor constituição de uma república, com a descrição da Utopia e larga pormenorização do seu governo e de todas as leis e instituições da mesma ilha”

Inicialmente Rafael começa por descrever a forma, as medidas e todas as particularidades físicas da ilha. Narra a história da sua formação pelo rei Utopos. É referido o número de cidades, “cinquenta e quatro amplas cidades (…) com idêntica língua, leis e instituições”. As famílias eram igualmente regidas por um chefe denominado “filarco” que se ocupavam de garantir que não houvesse escassez de víveres para as suas famílias, transmitindo ao estado tudo no caso de alguma falta.

Fala da agricultura e da forma equilibrada como ela se processa. Entre as cidades há um regime de partilha absoluta, incluindo os alimentos.

O próximo tema referido é “As cidades, com especial menção de Amaurota”. Pela sua semelhança, só uma é descrita: Amaurota. Esta é, pela sua centralidade e pela presença do Senado, a mais importante e considerada. É primeiro descrita fisicamente, os rios, pontes, montes, ruas, … Considerei de destaque a descrição das casas, iguais, com os mesmos materiais, sem fechadura ou cadeado, ”qualquer aí pode entrar, pois nada há dentro das casas que seja pertença individual de um indivíduo. De dez em dez anos, mudam de casa, tirando à sorte a que lhes cabe.”

“Dos magistrados”, cujas funções, nomes e processo de eleição são aqui descritos. Achei curioso, que para preservar “ a reflexão e a sabedoria, impedindo-se a precipitação obstinada”, seja punida com a morte a reunião fora do concelho para deliberar sobre assuntos públicos e que não seja uso discutir qualquer assunto no dia em que é apresentado.

“Das artes, ofícios e preocupações”; a Agricultura é o ofício mais valorizado “em que todos são igualmente peritos e hábeis”, sendo alvo de aprendizagem nas suas escolas. Todos devem aprender um outro ofício, cuja variedade se limita à tecelagem, ao ofício de pedreiro, ferreiro ou carpinteiro. Todas as outras profissões, consideram-nas inúteis e condutoras à ociosidade. Há ainda aqueles que se ocupam exclusivamente do estudo, podendo futuramente ocupar o cargo de magistrado.

Estranho é o vestuário, o mesmo para todos, excepto a diferenciação de sexo e estado civil. “Um só fato dura-lhes, normalmente, dois anos. Que mais se há-de desejar?”, poupando assim trabalhadores e tempo.

Como tudo, também o horário é o mesmo: trabalham apenas 6 horas, todos se deitam ás 8 horas sem excepção. Prezam as actividades de lazer, podendo cada individuo gozar o seu tempo livre como preferir, desde que não entregue a vícios ou à preguiça. São descritas as actividades em que se ocupam, nomeadamente música ou jogos. Rafael preocupa-se em explicar porque as tão poucas horas são suficientes, dizendo que ” Facilmente compreendereis se tiverdes em conta a enorme quantidade de ociosos que existem nos outros países”

“Da vida e das mútuas relações entre os cidadãos”, descritas ”as ocupações familiares e as relações entre o povo, além do modo de distribuição de todas as coisas”. Descreve-se o processo de formação das famílias. Para garantir a igualdade, algumas limitações são impostas nomeadamente o número de filhos. Ainda a propósito da família, fala-se nas relações com outros povos e na possibilidade de guerra, bem como do facto de recorrerem às colónias no caso de “diminuir de tal modo a população de qualquer das suas cidades que não possa ser preenchida com o excesso de população de outras (…)recorrem à população das colónias, pois preferem deixar perecer a população das colónias a acontecer esse mal a qualquer das cidades da sua ilha”, ponto que realço por julgar escapar a tão defendida igualdade. Talvez, na Europa, agir deste modo, por exemplo, em relação a outro continente ou mesmo colónia não fosse assim tão equalitário.

Hitlodeu relata a forma de distribuição dos bens e alimentos que são obtidos sem necessidade de pagamento ou troca pois “ para quê pensar que alguém iria pedir mais do que precisava, se não receia que nada lhes falte?” Existem 4 hospitais em cada cidade, bem equipados e com extraordinárias condições de atendimento.

É retratada a vida das crianças, a sua educação e convívio com outras faixas etárias.

O prazer é promovido, desde que dele não advenha nenhum mal.

“Das viagens dos Utopianos e outros assuntos diversos espirituosa e habilmente discorridos”, aqui se descrevem as viagens e as normas que elas exigem, bem como as penas no caso de não cumprimento. Os excedentes, as carências e o comércio praticados na ilha são narrados. É curiosa a forma como encaram o lucro e o ouro e a prata, (contrária à forma como o faz a Europa do século XVI e mesmo do nosso tempo) usando-os para “vasos de noite”, cadeias, grilhetas, algemas, e anéis para os condenados.

Os seus conhecimentos acerca  da nossa sociedade, ciência ou filosofia são avaliados, ressaltando as suas convicções acerca da felicidade e do bem, assim como o facto de serem completamente contra a dor e a favor do prazer (tema com forte reflexão na obra) e o valor da natureza para a concepção do homem. Hitlodeu refere alguns dos conhecimentos que lhes pôde transmitir, por exemplo acerca de literatura. O gosto do povo pelo estudo é notável.

“Dos escravos, doentes, casamento e diversos outros assuntos”

A condição de escravo é reservada para aqueles que falharem no cumprimento de algumas leis da Utopia ou a condenados à morte de origem estrangeira. Alguns são sujeitos a trabalho contínuo e acorrentado e é-lhes reservado todo o trabalho servil, penoso e menos limpo.

Quanto aos doentes, são tratados com cuidado e apreço. Aos que sofrem de doenças incuráveis defendem, nomeadamente os sacerdotes, sem no entanto obrigar, a morte, considerando quem disso capaz homem religioso, sábio e virtuoso.

No que respeita ao casamento, não é permitido a sua dissolução (sendo punido com escravidão) excepto por caso de adultério ou comportamento intolerável de um dos cônjuges. Nele valorizam a paz, a virtude e a obediência. Discute ainda a questão da justiça.

“Da guerra”, consideram-na vergonhosa. Evitam-na ao máximo, indo apenas em auxílio dos amigos e no caso de algum povo maltratar ou matar algum dos seus homens. Sentem-se honrados quando conseguem vencer pela astúcia e inteligência e não pela violência. As mulheres podem acompanhar os maridos nas batalhas.

São descritas as armas utilizadas, bem como o tipo de luta realizada e algumas normas de procedimento

“Das religiões da Utopia”, neste tema são descritas as diversas formas de crença religiosa sendo a principal e verdadeira a crença num deus único, criador e senhor do universo, a quem chamam Mitra. Rafael referencia que, aquando da sua visita, muitos abraçaram a religião cristã, coexistindo pacificamente esta com todas as outras. Não toleram, no entanto aquele que não tem religião, afastando-o da vida pública. Todas as ideias defendidas pelos Utopianos nas questões da vida e da morte, oculto são agora referenciadas. Falam do celibato e do sacerdócio e das virtudes necessárias a esta profissão e a forma como estes são nomeados, pelo povo em escrutínio secreto. O narrador refere os dias santos e as formas de culto, nomeadamente templos.

Este capítulo acaba com uma reflexão de Hitlodeu acerca da sociedade europeia e uma exaltação da organização utopiana.

Esta última parte ensina-nos muito em termos filosóficos e ideológicos e toda a obra é, a meu ver, ainda hoje uma interrogação e um bom meio de compreensão da sociedade em geral. O carácter exagerado de algumas medidas alerta-nos para a questão histórica dos ideais humanistas e políticos e com outra aplicação, da actualidade.

  http://www.mathematicianspictures.com/authorspictures/posters350w/THUMB_300W_11_JPEG_UTOP.JPG

 

http://www.onemap.org/gfx/utopia2_mod.jpg

 

http://yliopistolehti.helsinki.fi/1996_18/18kuvat/utopia.gif

publicado por António Luís Catarino às 19:08
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2 comentários:
De António Luís Catarino a 5 de Junho de 2006 às 20:14
Ana Campos! Maravilha de artigo o teu sobre a Utopia de Thomas More, um livro que me marcou muito na minha juventude universitária. Podia estar aqui umas horitas a escrever sobre esta Utopia (haverá outras!), mas como se diz «Não temos tempo». Mas que me marcou, marcou. Sobre o teu trabalho devo realçar a honestidade para além da evidente qualidade. Ora, a honestidade está intimamente ligada à maneira como se trabalha e que o professor pressente nos alunos. Há aqui pouca tesoura e cola, - como diria o italiano Humberto Eco no seu livro Como se Faz uma Tese editado pela Presença (salvo erro) e que te aconselho vivamente a ler (na Feira do Livro está a preços óptimos, mas também existe na biblioteca da escola), - e muita investigação e leitura. Parabéns mais uma vez, Ana.
De Manuel Oliveira a 21 de Dezembro de 2013 às 12:42
Depois de 500 anos, o assunto não está morto.
Todas as pessoas querem ser felizes e, por isso, há cada vez mais pessoas a quererem uma Utopia.
Como a ciência está a ganhar terreno, há cada vez mais cientistas a aplicarem a ciência no assunto.
Por exemplo, saiu recentemente o livro "O 8º Dia" (www.uniorder.org) que propõe uma Utopia científica.

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